MPT-CE amplia debate sobre prevenção ao bullying e outras violências nas escolas
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, apontam crescimento da percepção do bullying e reforçam a necessidade de ações integradas entre escola, família e rede de proteção
Recentemente, o Ministério Público do Trabalho no Ceará (MPT-CE), por meio da Rede Peteca, promoveu um seminário virtual voltado ao debate sobre a prevenção ao bullying e às diversas formas de violência no ambiente escolar. O encontro reuniu especialistas, estudantes e educadores e foi transmitido pelo canal da Rede Peteca no YouTube, com mediação do procurador do Trabalho Antonio de Oliveira Lima.
A discussão teve como base os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada em março de 2026, com informações coletadas ao longo de 2024. O levantamento contou com a participação de estudantes de escolas públicas e privadas de 1.282 municípios brasileiros. Segundo o procurador do MPT-CE, “a PeNSE aplica estratégia de sensibilização voltada aos gestores das secretarias estaduais e municipais de educação e de saúde, bem como para diretores responsáveis pelas escolas e seus alunos”.
Durante o seminário, Antonio de Oliveira enfatizou que os dados evidenciam não apenas a permanência do problema, mas também a necessidade de uma abordagem mais abrangente. Para ele, o bullying não deve ser compreendido de forma isolada, uma vez que se articula com outras violações de direitos, como discriminação, exclusões sociais e diferentes expressões de violência que atingem crianças e adolescentes.
Entre os resultados apresentados, destaca-se o aumento do percentual de estudantes que relataram sofrer bullying de forma recorrente. “Este é o sexto ano que a Rede Peteca discute o tema; é muito preocupante que, com todo o nosso esforço, ainda tenhamos quase um terço das crianças declarando sofrer bullying”, afirmou o coordenador da Rede Peteca.
Outro aspecto apontado foi a diferença de gênero na ocorrência do fenômeno. Os dados indicam maior incidência de meninas entre as vítimas, enquanto os meninos aparecem em maior proporção entre os autores das agressões. Esse recorte evidencia que o bullying também reflete desigualdades estruturais e padrões discriminatórios presentes na sociedade, como violência de gênero, racismo e humilhações relacionadas à aparência física.
No encontro, também foi mencionado o avanço do cyberbullying, potencializado pelo uso intenso de redes sociais e ambientes digitais, assim como com os impactos dessa e de outras violências na saúde mental de crianças e adolescentes. Nesse contexto, foi defendido o fortalecimento de estratégias de educação digital, escuta qualificada, responsabilização adequada e ações preventivas por parte das instituições.
A escritora e cientista social Anna Luíza Calixto relatou a importância da análise dos dados estatísticos para o planejamento de políticas públicas. Segundo ela, “não existe política pública sem diagnóstico”. Ao apresentar o projeto autoral “Bem me quer”, a pesquisadora relacionou os resultados da PeNSE a temas como bullying, misoginia, sofrimento psíquico, insatisfação corporal e os efeitos das redes sociais sobre a adolescência. Anna Luíza também ressaltou que “a pesquisa de 2024, em comparação ao levantamento de 2019, revela muito do que é uma adolescência que atravessou uma pandemia, a qual se tornou um forte vetor de adoecimento psicológico”.
O seminário reforçou que a prevenção ao bullying passa pela atuação sobre suas causas profundas, incluindo discriminações históricas, violências naturalizadas e práticas excludentes presentes nas relações sociais desde a infância. A articulação entre instituições foi apontada como fundamental para a construção de respostas efetivas, humanizadas e capazes de interromper trajetórias de sofrimento.
Para o MPT-CE, a discussão dialoga diretamente com a defesa da dignidade humana, dos direitos fundamentais e da proteção integral de crianças e adolescentes, princípios que orientam a atuação institucional. O debate reafirma a importância de iniciativas permanentes de conscientização e mobilização social voltadas à promoção de ambientes escolares mais seguros, inclusivos e respeitosos.

